quarta-feira, maio 13, 2020

Poetas


Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

Florbela Espanca, Poesia Completa,
Lisboa: Bertrand Editora, 2006, p.19

sexta-feira, maio 01, 2020

Cursos da Escola de Verão da FCSH da UNL 2020

A partir de hoje estão disponíveis as inscrições para os cursos da Escola de Verão da FCSH da UNL 2020. Em colaboração com as professoras Maria do Rosário Laureano Santos e Leonor Santa Bárbara irei lecionar, de 6 a 22 de julho, os seguintes cursos:

-Curso de Iniciação ao Latim (https://www.fcsh.unl.pt/outros-cursos/iniciacao-ao-latim/)






quinta-feira, abril 30, 2020

O reinado de Saturno

Italiae cultores primi Aborigenes fuere, quorum rex Saturnus tantae iustititae fuisse traditur, ut neque seruierit sub illo quisquamm, neque quicquam priuatae rei habuerit, sed omnia communia et indiuisa omnibus fuerint, ueluti unum cunctis patrimonium esset. Ob cuius exempli memoriam cautum est, ut Saturnalibus passim in conuiuiis serui cum dominis recumbant.

Justinus, Historiae Philippicae, XLIII, 1, 3-4

domingo, abril 05, 2020

Soneto XCVIII

De ti me separei na primavera:
quando o risonho abril, ao sol voando,
em cor e luz, a plenas mãos, cantando,
nova alegria entorna pela esfera...

No viridente bosque até dissera
o pesado Saturno ver folgando...
Porém nem cor vistosa ou cheiro brando
lograram incender minha quimera.

A brancura dos lírios, não a vi...
O vermelhão das rosas desmaiava...
Eram fantasmas só... ao pé de ti
... o seu modelo... quanto lhes faltava!

Par´cia inverno; e eu, a viva alfombra,
Só pude imaginá-la a tua sombra.
                        
                                           William Shakespeare, (trad. de Luís Cardim),
Colóquio Letras n.º 168/169, julho de 2004, pp. 174-175.

sexta-feira, novembro 08, 2019

Cem anos de Sophia de Mello Breyner Andresen

O REI DE ÍTACA

A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou o seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado

O Nome das coisas, 1977

terça-feira, janeiro 01, 2019

Feliz Ano de 2019!

Recomeça….
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
Miguel Torga

sexta-feira, dezembro 14, 2018

Natal

Chove. É dia de Natal. 
Lá para o Norte é melhor: 
Há a neve que faz mal, 
E o frio que ainda é pior. 

E toda a gente é contente 
Porque é dia de o ficar. 
Chove no Natal presente. 
Antes isso que nevar. 

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção, 
Quando o corpo me arrefece 
Tenho o frio e Natal não. 

Deixo sentir a quem quadra 
E o Natal a quem o fez, 
Pois se escrevo ainda outra quadra 
Fico gelado dos pés. 

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'