terça-feira, janeiro 01, 2019

Feliz Ano de 2019!

Recomeça….
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
Miguel Torga

sexta-feira, dezembro 14, 2018

Natal

Chove. É dia de Natal. 
Lá para o Norte é melhor: 
Há a neve que faz mal, 
E o frio que ainda é pior. 

E toda a gente é contente 
Porque é dia de o ficar. 
Chove no Natal presente. 
Antes isso que nevar. 

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção, 
Quando o corpo me arrefece 
Tenho o frio e Natal não. 

Deixo sentir a quem quadra 
E o Natal a quem o fez, 
Pois se escrevo ainda outra quadra 
Fico gelado dos pés. 

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro' 

sexta-feira, agosto 24, 2018

Ajuda

Porque o amor é simples,
vale a pena colhê-lo,
Nasce em qualquer degredo,
Cria-se em qualquer chão.
Anda, não tenhas medo!
Não deixes sem amor o coração!

Miguel Torga - Diário III

sábado, agosto 04, 2018

Do sentimento trágico da vida

Homo sum; nihil humani a me alienum puto, disse o cómico latino. E eu diria melhor: nullum hominem alienum puto ("Sou homem; nenhum outro homem me é estranho"). Porque o adjectivo humanus me é tão suspeito como o seu substantivo abstracto humanitas, a humanidade. Nem o humano nem a humanidade, nem o adjectivo simples, nem o adjectivo substantivado, será o substantivo concreto; o homem. O homem de carne e osso, o que nasce, sofre e morre sobretudo morre; o que come e bebe e joga e dorme e pensa e quer, o homem que se vê e a quem se ouve, o irmão, o verdadeiro irmão.

Miguel de Unamuno, Do
Sentimento Trágico da Vida, trad. de S.
Stacey.

sexta-feira, agosto 03, 2018

"A Memória"

São raros aqueles que teimam em viver, sob a excomunhão do Maior Número, que os crisma de malucos, poetas, criminosos, mágicos! Mas que admirável espectáculo, o do homem que vive, até à hora da sua morte! Eu vos abençoo, malucos, lunáticos, mágicos, criminosos, poetas! E os que saem para a rua, sem chapéu, por divino esquecimento! E os que vão a falar só, pelos caminhos... e os que olham a lua, latindo intimamente... e os que se não conformam, os que não seguem a lei e o costume, todas as criaturas onde o campo o anjo da infância sobrevive.

Teixeira de Pascoaes, Verbo 
Escuro, "A Memória", Assírio & Alvim.

quarta-feira, agosto 01, 2018

Gaia Ciência

E se um dia ou uma noite um demónio se esgueirasse na tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la mais uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência..." Como não atirar-te ao chão, rangendo os dentes e amaldiçoando o demónio que assim te falou? Ou já alguma vez experimentaste aquele formidável momento em que lhe terias respondido: "És um deus, e nunca ouvi algo mais divino"... Como te terias tornado tão bem disposto perante ti mesmo e a vida para chegar a não desejar alguma coisa mais ardentemente que este supremo desígnio e esta confirmação eterna?

F. Nietzsche, Gaia Ciência, IV, 341,
trad. de António Marques, Relógio
d'Água.

domingo, julho 29, 2018

La Dolce Vita

Frequentemente, pela noite, a escuridão e o silêncio caiem sobre mim. A paz assusta-me. É a ela que temo, talvez acima de tudo. Sinto-a como simples máscara, cobrindo a face do inferno. Medito no que o futuro reserva aos meus filhos: "O Mundo será maravilhoso", dizem. Do ponto de vista de quem? Somos forçados a viver num estado de suspensão, como obras de arte; num estado de encantamento... distanciados. Distanciados.

Frederico Fellini, La Dolce Vita,
trad. S. Rafael.